Publicado em 21 de julho de 2026 · Dra. Tatiana Gaertner | OAB/PR 43.655
Semana passada, uma família perdeu a segunda safra seguida por causa do clima. Não foi um evento isolado: foi mais um ano em que a chuva veio na hora errada, de um lado, e não veio de jeito nenhum, do outro. Se tu já sente esse aperto, sabe que a notícia do El Niño 2026 não é só sobre o tempo. Pra quem já está com dívida no banco e a safra ameaçada, é mais um golpe em cima de uma ferida que ainda não cicatrizou. E o que mais preocupa não é só o clima em si: é o número de produtores que vão perder o direito a um benefício importante só porque não contrataram o seguro certo pra lavoura deles, ou não acionaram o Proagro no momento correto depois da perda.
O Centro de Previsão Climática dos Estados Unidos aponta 81% de probabilidade de o El Niño estar entre os mais fortes já registrados no pico, entre outubro e dezembro de 2026. O INMET e o INPE confirmam o mesmo padrão pro trimestre de julho a setembro: chuva acima da média no Sul, chuva abaixo da média no Centro-Norte, com mais de 90% de chance de o fenômeno persistir (fonte: nota do INMET sobre o El Niño 2026, portal.inmet.gov.br; nota técnica conjunta INPE/INMET/Funceme/Censipam, gov.br/inpe).
Isso não é uma previsão qualquer. Pra quem planta no Sul, excesso de chuva atrasa colheita, apodrece grão, derruba qualidade. Pra quem produz no Centro-Norte, a estiagem corta a produtividade bem no meio do ciclo. E os dois cenários caem em cima de gente que, em boa parte dos casos, já está devendo custeio, investimento ou as duas coisas. Uma safra frustrada em cima de uma dívida que já apertava faz o problema antigo crescer, junto com o valor que falta pagar no próximo vencimento.
Aqui mora o primeiro engano que mais custa caro. Existe o Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural, o PSR, do Ministério da Agricultura e Pecuária. Ele paga parte do prêmio (o valor que o produtor paga pra ter a apólice) para a maioria das culturas: 40% de subvenção, ou 20% no caso da soja desde 2022 (fonte: página oficial do PSR, gov.br/agricultura).
O detalhe que pega muita gente de surpresa é este: pra financiamentos de custeio agrícola de até R$ 335 mil, em culturas cobertas pelo Zoneamento Agrícola de Risco Climático (o ZARC, um estudo oficial que define, cultura por cultura e região por região, qual é a janela de plantio com menor risco climático), a adesão ao Proagro ou a contratação de um seguro rural equivalente é obrigatória. E essa cobertura precisa corresponder exatamente à cultura, à região e à janela de plantio que o ZARC estabelece.
Na prática: se tu plantou fora da janela indicada pelo ZARC pra tua região, ou contratou uma apólice genérica que não bate com a cultura ou a área certa, é bem possível que essa apólice simplesmente não pague na hora do sinistro. Não é falta de sorte. É o seguro errado pra safra certa.
O Proagro (Programa de Garantia da Atividade Agropecuária) é um programa federal criado pela Lei 5.969, de 1973, administrado pelo Banco Central, com as regras detalhadas no Manual de Crédito Rural, o MCR (o conjunto de normas do Banco Central que regula como funciona o crédito pra quem planta e cria no Brasil). A adesão acontece no momento em que o produtor formaliza o financiamento com o banco (fonte: Proagro no site do Ministério da Agricultura e Pecuária, gov.br/agricultura; Manual de Crédito Rural completo no site do Banco Central, bcb.gov.br/mcr).
A comunicação da perda precisa ser feita ao agente financeiro imediatamente depois do evento que causou o dano. A partir daí, o banco tem até 5 dias úteis pra indicar um perito, e depois do laudo pronto, ainda até 45 dias úteis pra julgar o pedido. Avisar fora do prazo, ou de forma incompleta, pode inviabilizar o benefício inteiro, mesmo com o dano real.
A previsão de El Niño forte pro segundo semestre de 2026 é isso: uma previsão, feita por órgãos oficiais, com alta probabilidade de se confirmar, mas ainda não um fato consumado. É exatamente por isso que agora, meses antes do pico entre outubro e dezembro, é o momento de checar três coisas com calma, sem a pressão de uma safra já em risco na tua frente.
Primeiro, se a apólice que tu tem (ou que o banco te ofereceu junto com o financiamento) cobre de fato a cultura, a região e a janela de plantio que tu está usando. Segundo, se tu sabe, com clareza, qual é o passo a passo pra avisar uma perda ao Proagro assim que ela acontecer, sem depender da memória na hora do desespero. Terceiro, se a tua dívida atual já está no ponto em que uma nova frustração de safra pode comprometer o pagamento do próximo vencimento.
Nenhum desses três pontos exige pressa de leilão ou notificação, mas exige atenção antes que o clima decida por ti. Alguns passos ajudam a chegar preparado:
Também vale a leitura do e-book gratuito "As Leis do Campo", que reúne, de forma simples, os principais direitos do produtor rural diante de perdas climáticas e dívida bancária.
O clima, a gente não controla. Mas o prazo pra acionar o Proagro, a cobertura certa da apólice e a real exposição da tua dívida são coisas que dá pra organizar agora, com calma, antes que o El Niño 2026 chegue com força. Se você está preocupado com o clima e com as consequências dele na tua produtividade, converse com um advogado. Se ainda não tem um, procure uma especialista na área antes que a safra seja atingida.
Entenda com precisão a real situação da sua dívida e da sua cobertura antes da safra ser atingida.